Por que trabalhar com jogos no Japão é considerado "desperdício de talento"?


Pra quem gosta de jogos japoneses (ou não), sabe que esse mercado fez e ainda tem grande importância no mercado de jogos. Quem está acostumado a jogar sabe o quanto tem de jogo bom feito pelo Japão nessa indústria e o quanto ela consegue entreter. Mesmo com a grande popularização dos jogos ocidentais, eles ainda conseguem atrair um grande publico que joga seus jogos, além de estar atraindo um novo publico a jogos que só ficavam no Japão como: visual novels e jogos com uma temática mais MOE e Eroge.

Eu por exemplo sou um grande fã de jogos japoneses dês da época que eu jogava Sonic (onde jogo até hoje), onde formou o meu perfil gamer. Tem jogos ocidentais que eu gosto, mas o que mais me agrada são os jogos japoneses e seu estilo de jogabilidade. Porém como é visto esse mercado no Japão e como são vistos as pessoas que trabalham nesse ramo de desenvolvimento de jogos?

Por incrível que pareça, ainda tem muitos japoneses que não enxergam esse trabalho como algo serio. Um japonês ser talentoso e ser excelente nos estudos, ele tem um grande futuro pela frente, onde ele pode ser um grande engenheiro ou medico. Mas quando esse mesmo japonês fala que deseja entrar na area de desenvolvimento de jogos é bem comum ele escutar um "você está desperdiçando o seu talento" ou "vai arrumar um emprego de verdade".


Mesmo com toda a fama da Nintendo e com o mercado de games cada vez mais competitivo, isso é ainda não é visto no Japão como algo serio, mesmo sendo um entretenimento. E como sabemos não é só a área de games que sofre com essa discriminação do entretenimento, os animes e mangas também sofrem com isso. Se você assistiu Bakuman, deve ter tido uma noção de como é visto o entretenimento de manga no Japão. Além do pessoal que trabalha nesse area ganhar pouco, ainda é uma profissão mal vista pela família, onde querendo ou não, se aqueles jovens fossem trabalhar em outra area iriam ganhar bem mais do que como mangakas.

Teve até um episodio interessante de Bakuman, onde fazem uma comparação entre um manga e um livro. Nessa comparação, falam que o livro é melhor que um manga, onde o conteúdo de um romance é bem melhor que de um simples quadrinho. Mas qual a diferença entre um livro e um manga? Ambos tem seus públicos e ambos tem a função de entreter o consumidor, a grande diferença de um manga para um livro é seu publico. O publico que lê livros tendem a ser um publico mais "elitista", onde costumam comparar o conhecimento de um publico X a um Y para dizer qual entretenimento é o melhor.

Isso se chama "elitização do entretenimento", onde se usa o nível de renda ou de inteligência de determinado grupo para determinar qual o entretenimento é o melhor pelas pessoas que o consomem e não pelo entretenimento em si. O que um livro, manga e jogo tem em comum? Todos eles são uma forma de entretenimento e cada um deles tem um tipo de narrativa e estilos que se adéquam a seu tipo de publico.


Não da pra comparar um manga com um livro ou jogo, pelo fato de cada um ter um estilo e padrões diferentes um dos outros. Cada qual é melhor na sua área de atuação. O que não impede que um consumidor de livros de comprar um jogo ou um quadrinho. Porém essa comparação sempre
vai existir, principalmente na sociedade japonesa, que é uma sociedade bem elitista, tanto na sua sociedade quanto na sua cultura.

Um exemplo de como a profissão de jogos podem ser mal vista no Japão é num anime que vi, onde me esqueci o nome dele. No anime as pessoas que morreram podem enviar uma carta para uma pessoa que esta viva. Ai um trabalhador do outro mundo, envia essa carta pessoalmente a pessoa viva no mundo dos vivos.

Num desses episódios, mostra um cara adulto que trabalha com games e até fazem bons jogos. Mesmo esse não sendo o foco do anime, ele deu uma boa visão de como é visto a profissão de jogos e como os trabalhadores se comportam diante dessa profissão. Assim como nos mangas, o desenvolvedor de jogos no Japão, trabalha nessa área pelo prazer da coisa, ele gosta de fazer jogos, simples assim. Não importa se tal profissão da mais dinheiro (e status) a ele, o importante é que a profissão que ele esta fazendo seja algo que ele goste e de prazer de fazer aquilo.


Nos mangas esse lado japonês de trabalhar naquilo porque gosta e sente prazer naquilo, não é muito diferente de quem trabalha com jogos no Japão. Pra nos no ocidente isso pode parecer um comportamento normal, afinal costumamos escutar o tal "trabalhe naquilo que você gosta e não aquilo que te da mais dinheiro", então ao nosso ver, o cara trabalhar com manga ou jogos no Japão porque gosta não é algo fora do comum. Porém no Japão, o status do trabalho é algo muito importante que chega a ir na frente do que o japonês queria trabalhar realmente.

Isso não é um pensamento que vai mudar da noite para o dia, isso é algo que vem da cultura a varias gerações. Quem pode mudar esse pensamento aos poucos são as novas gerações japonesas que vão nascer no futuro. Esse tema do que o jovem japonês deseja ser me lembra do episodio final de Digimon Adventure 2, onde as crianças estão dominadas pelas trevas, pelo fato de saber que não podem realizar o que elas sonham em ser no futuro.

Ai nesse momento, o protagonista Davis(eu acho), fala que seu sonho é ser vendedor de macarrão. Depois disso as crianças falam o que elas realmente desejam ser no futuro, fazendo assim as trevas que a estavam dominando desaparecerem e assim o vilão foi derrotado. Como Digimon de fato é um anime para crianças, a simples mensagem do cara ser vendedor de macarrão pode soar inocente, mas carrega uma boa carga de critica a sociedade japonesa.


Muitas famílias japonesas, determinam o que a criança tem que ser no futuro e que profissão ela deve exercer, limitando aquele jovem de determinar o que ela deseja fazer de verdade. Mesmo sendo só um anime, ele consegue mostrar uma grande critica a sociedade japonesa em relação como o jovem muitas vezes não tem livre arbítrio de sua própria carreira profissional.

O mundo do Japão pode ser bem tenebroso para quem deseja trabalhar com jogos, mas mesmo assim isso não impede que mais pessoas se interessem em fazer parte desse mercado. Cada vez mais é comum surgirem clubes nas escolas japonesas sobre desenvolvimento de jogos, mostrando como jogo no Japão é considerado um entretenimento forte por lá.

Mesmo aquela pessoa que não trabalha (profissionalmente) com jogos, isso não impede da mesma fabricar o seu jogo nos tempos livres e depois divulga-los apos serem concluídos. Um bom exemplo disso é o Daisuke Amaya "Pixel", onde ele fez o jogo Cave Story nos tempos livres, com isso o jogo demorou 6 anos para ser terminado e mesmo assim ele disponibilizou o jogo de graça na internet. Ele só ganhou dinheiro com o jogo quando o mesmo saiu para Nintendo 3DS, se chamando Cave Story 3D.


E também não podemos nos esquecer do criador de Touhou "ZUN", que até hoje, faz com prazer os jogos da franquia do Touhou Project. Que é um jogo doujin (indie japonês) extremamente popular no Japão. E até hoje ele faz novos jogos de Touhou e não tem planos de parar com a franquia.
Mesmo tendo seus problemas, a franquia de jogos no Japão está longe de morrer, afinal é uma cultura que cada vez mais está atrelada a sociedade japonesa, por mais que se tenha um publico que não aceite devido ser um novo mundo para eles. Os jogos estão ai pra ficar, assim como os animes e mangas.

Gostaria de ver mais animes e mangas que debatessem sobre a visão da sociedade japonesa em relação aos jogos, afinal anime e manga costuma fazer boas criticas a sociedade japonesa, mesmo sendo um entretenimento. Se os japoneses vão mudar essa visão em relação a quem trabalha com jogos só o tempo dirá, mas uma coisa é certa: jogo no Japão é algo que veio pra ficar, com a sociedade japonesa aceitando ou não.

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3 Responses to Por que trabalhar com jogos no Japão é considerado "desperdício de talento"?

  1. Então, cara, vamos aos pontos sobre o texto que acho deveriam ser ressaltados:

    1 - Não ficou claro se vc queria fazer um relato do preconceito em si ou constatar esse fato. Que, de certo modo, é bem conhecido por quem se liga minimamente á cultura japonesa contemporânea. portanto, não vi muitas novidades quanto ao texto em si. Acabou ficando meio um mais do mesmo. Ouvimos e lemos isso todo dia repetidamente em fóruns, no facebook e mesmo em notícias sobre esse universo japon~es moderno. Sendo a reflexão do nicho de games japoneses apenas para uma parcela da população indício de que esse mercado, outrora bem grande, se afunilou, porém, é bom saber que steam está trazendo jogos japoneses que ficavam só por lá antes.

    2 - A própria figura do otaku é o cara que trabalha nessas empresas ou negócios: sejam games ou animês. E, ele, mesmo é um segregado social e um isolado. Os índices de pessoas que vivem isoladas no Japão é assustador, mas mais assustador são aqueles que não contam com uma vida social minimamente. Vemos isso em inúmeros mangás novamente e quem se mete a ser mangaká ou designer de games são essas pessoas. Não me surpreende que sejam mal-vistos. Mas, claro, isso é um padrão e a própria sociedade japonesa sustenta isso.

    Outro ponto a ser levado em consideração; trabalhe no que se gosta e não no que dá dinheiro. Desculpe, mas esse pensamento é considerado pensamento de quem não quer ter seu talento reconhecido segundo os padrões ocidentais (de onde surge o pensamento de que tudo é medido proporcionalmente pelo retorno financeiro). Eu sou professor e a profissão tem status de mangaká por aqui no Brasil: mal remunerada, ingrata e com a possibilidade de lidar com os piores desrespeitos. Tudo é mal dito pelos outros sobre a profissão. A estigmatização recaí sempre pela profissão que menos recebe. profissão nobre é medida pelo dinheiro que se tem retorno. Quando professor era bem pago por aqui (nos idos do começo desse século ou no anterior) a profissão era equivalente em prestígio à de médico.

    Veja só: a nossa saúde pública é um cu, mas médico ganha muito em clínica e em hospital particular, portanto, é digna. O mesmo vale para professor de curso técnico e faculdade, mas só porque é bem pago. Portanto, essa lógica não é cultural deles e dificilmente vai ser superada por conta de um contingente. O regime lá é democrático e capitalista igual ao resto do mundo.

    Portanto, esse argumento é fraco e não cola ao meu ver. Não me leve à mal, mas eu realmente quero opinar sobre o texto. Escrevi durante muito tempo sobre isso. O próximo assunto é o elitismo cultural. Ponto para você: esse elitismo é real e ele é tanto verdade no japão quanto nos EUA. Porém, as grandes empresas de computadores e software estão ligadas ao desenvolvimento de jogos o que torna os envolvidos em programadores profissionais. Lembrar que muito do mercado japonês de games é de Doujins (não que esse mercado não tenha qualidade. Ao contrário) e isso torna o emprego de certo modo amador. A maioria dessas empresas contratam eles como freelancers. Caso você vá ingressar nesse mercado. É um mercado arriscado e que diminui muito desde a época de 90. Época de empreitada e do boom do mercado japonês de games e de animação.

    Só vou traçar um paralelo entre o mercado japonês e o mercado de games americanos na época do Atari. O pessoal era freelancer, mal pago e corria o risoc de terem suas idéias roubadas e pegas pela empresa pelo ismples fato de que os jogos não tinham royalties pros criadores. Muita gente desempregada e se fodendo nessa época.

    EUA, a terra prometida fez cagadas semelhantes.

    tem muitas outras coisas que queria comentar, mas por enquanto é isso. Acho que seria melhor o texto se ele trouxesse informações novas de fato. o caso é que eu já li a maioria dessas informações repetidas vezes por aí.

    Espero que compreendam que estou dando o feedback como uma ajuda para melhorar o texto e não ferrar com vcs.

  2. Vou cursar a faculdade de Ciências da Computação no Japão, e quero me especializar em computação gráfica.
    Desde o começo da minha escolha, sabia que seria um caminho muito difícil, mas estou disposto a ultrapassar qualquer dificuldade, para poder realizar meu sonho.

  3. Anônimo says:

    Como sempre, são textos muito interessantes.
    Ainda estou refletindo sobre o que li, mas gostei muito. =D

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